Um blog chamado desejo

"Eu sei que fiz um bom negócio. Afinal, 50% do charme de uma mulher é ilusão."
Blanche DuBois


Ela aspira a virtude, a beleza e a cultura que não possui. Através de fantasias e delírios, pocura esconder de si mesma e dos outros a realidade em que vive, tentando parecer mais atraente, mais inteligente e mais desejada do que realmente é. Me impressiona como a descrição de Blanche DeBois, personagem criada por Tennessee Willians para a peça "Um bonde chamado desejo", de 1947, é semelhante ao que podemos encontrar atrás do teclado que alimenta muitos blogs hoje.

Blanche vive em um mundo de ilusões, onde a mentira se mistura a verdade, criando conflitos que se agravam até que ela tem uma crise nervosa. E no final suas palavras soam vazias como um apelo a seguidores de uma rede invisível: "Eu sempre dependi da bondade  de estranhos...".

Ilusões, mentiras e verdades

"Eu não quero realismo, eu quero magia"
Blanche DuBois


Os blogs começaram como diários pessoais. Cresceram como mídia, atraíram marcas, ganharam credibilidade e... criaram um mercado para o qual os profissionais de agências e os próprios autores estavam despreparados.

Como resultado vimos mudanças profundas e bacanas no relacionamento das mídias tradicionais, que a princípio negavam os blogs e colocavam sua credibilidade na berlinda. Até que o jogo se inverteu e grupos de comunicação passaram a investir neste novo ecossistema de informação e... influência. Surgiram as redes de blogs com modelos comerciais estruturados, mas o sucesso é uma merda: atrai milhares de moscas.

E vimos na blogosfera o que já tínhamos visto nas lojas de R$ 1,99: o sucesso, a multiplicação, o inchaço, a repetição das mesmas informaçõe/produtos por preços cada vez mais baixos e insustentáveis. O mercado se degradou, se prostituiu e hoje está em crise. O termo blogueiro, que já foi maldito e depois virou símbolo de status, agora é usado em tom pejorativo. E qual a causa disso?

Diferença e Repetição

Pensamos que, quanto mais blogs, mais visões diferentes teremos. Só que não. O que encontramos são cópias das cópias das cópias. Fico tentado, mas não vou entrar em Deleuze aqui. A questão é que a repetição matou o que tornava os blogs diferentes das mídias anteriores e entre si: a possibilidade de uma expressão singular de identidade, de opinião, de posicionamento diante do mundo. 

Corruptos e corruptores


Diante deste mercado desestruturado, as marcas criaram monstros para se alimentar deles, mas os monstros também queriam devorar as marcas. Instaurou-se o caos e hoje há uma crise que não diria que está na esfera da credibilidade, mas da identidade.

Este cenário proporciona o acontecimento de casos como o do lançamento do protetor solar Filtrum, onde o laboratório Libbs, através da agência Tino Comunicação, enviou um email onde colocou como exigência para participar da ação que as blogueiras mentissem, dizendo que usaram o produto por indicação do dermatologista. Ou seja, falarem em nome de um médico.

Onde quero chegar? Na questão que a responsabilidade por este caos não é só de blogueiros, mas também de agências, de profissionais e de marcas. O mais triste é que a falha não está na preparação profissional, mas na ética, nas pessoas.

Há esperança?

"O lobo na porta não é a privação, mas o luxo, e suas presas são as vaidades e conceitos que o sucesso traz. Pelo menos sabendo disso você pode identificar onde mora o perigo". Tennessee Willians

O autor de "Um bonde chamado desejo" escreveu posteriormente um artigo chamado "Um bonde chamado sucesso". Nele, explora as consequências da fama, este fogo-fátuo que parece estar consumindo a essência das pessoas, transformando-as em cascas vazias dispostas a se expor sem o menor pudor.

Willians propõe reflexões interessantes, como sobre o "ser alguém". Para o dramaturgo, a única pessoa que tem valor não é a que o público percebe de você (uma ficção), mas o ser solitário que existe em você desde a sua primeira respiração, que se moldou através da soma de suas ações e chega ao seu ápice quando se torna a expressão da sua vontade. É o conhecimento deste verdadeiro eu que se torna a chave para a sobrevivência ao sucesso (ou ao desejo dele).
E encerro este artigo com uma tradução do final do artigo "Um bonde chamado sucesso":

"Então o que é bom? Ter um interesse obsessivo nos assuntos humanos, além de uma certa quantidade de compaixão e de convicção moral, aquilo que faz você transformar a experiência de viver em algo que deve ser traduzido em pintura, música, dança, poesia, prosa ou qualquer coisa que seja dinâmica e expressiva - é o que é bom para você, se você tiver objetivos claros. William Saroyan escreveu grandiosamente sobre este tema, ao afirmar que a pureza do coração é o único sucesso que vale a pena ter. ‘No momento de sua vida - viver!’ Que o tempo é curto e não volta. Ele está indo embora. Enquanto eu escrevo isso e enquanto você lê, o tic-tac do relógio repete 'perda, perda, perda', a menos que você dedique o seu coração para se opor ao que está sendo perdido".
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6 comentários: on "Um blog chamado desejo"

Natalie Teves disse...

clap clap clap Adorei
boa noite bjim

Agne disse...

Obrigado Natalie!

Pati disse...

Caramba, muito bem escrito, ideias claras, enfim texto perfeito, adorei, vou imitar a coleguinha de cima Clap, Clap Clap, e de pé!
beijos e parabéns pelo seu blog
Pati Sato

Agne disse...

Obrigado Pati! Bem-vinda! ;o)

Luiz Araújo disse...

Incrível Felipe, você realmente está levantando a bandeira contra o consumismo e a futilidade. Realçando o que vale a pensa: _ os valores humanos. Me orgulho por ter você como amigo.

Agne disse...

Obrigado Luiz! Da mesma forma, amigo!
Grande abraço!

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