Elif Shafak: as políticas da ficção




Literatura, arte, cinema e teatro estão entre as áreas que tornam o mundo um lugar bom para amar. Ando meio desligado aqui do InSurto em virtude da Pós-Graduação em Artes que estou fazendo, mas não podia deixar de postar este excelente vídeo da palestra de Elif Shafak.

Assim como Elif, fui criado em ambientes diversos. Minha avó materna era uma alemã, falava alemão e tinha a cultura germânica: racional, efetiva, firme. Minha avó paterna era uma bugre de olhos verdes, colocava cartas, benzia e tinha o seu “congá”. Enquanto a germânica me chamava de “Schipe”, a bugre me chamava de “Gafanhoto”.


Então cresci com estes dois mundos povoando minha imaginação: o racional germânico, onde não falava uma palavra de Alemão com minha avó e tio-avô; e o místico indígena, onde não entendia nada de espiritualidade e tudo entrava em conflito com o que estava na Bíblia.

Elif me fez lembrar de ambas com sua história, pensar sobre minha infância introspectiva, as mudanças de escolas/culturas e a ficção como um meio de romper as barreiras culturais que matam a nossa imaginação.

O que me ajudou a enfrentar todas as mudanças, diferenças e indiferenças foi justamente a ficção. Aos 12 anos já havia lido a Bíblia inteira, atravessado o oceano com Ulisses, acompanhado o tratamento de Dibs, quebrado a cabeça sobre o livre arbítrio com Schoppenhauer e conhecido o Elogio da Loucura com Erasmo de Roterdã. Havia muitas “vidas” dentro de mim e isto me proporcionava um arsenal multicultural para enfrentar o mundo. Ou, nas palavras de Elif, um “senso” dos três “C”s fundamentais: Centro, Continuidade e Coerência.

Enquanto a realidade política, geográfica, religiosa nos aparta, a ficção nos une. Umberto Eco tem um ótimo exemplo disto, quando cita que as pessoas podem discutir por gerações sobre a existência ou não-existência de Deus ou mesmo o mistério da Trindade, mas todos concordam que Super-homem é Clark Kent.

Enfim, assistam o vídeo. Tem legendas em Inglês para quem tiver dificuldades em apenas ouvir. Se você não sabe Inglês ainda, comece a aprender hoje. Vale a pena. Mas fica o toque: seria melhor estimularmos nossos jovens a escrever/criar sobre o que imaginam, não sobre  que sabem. Mais coração, menos reprodução.
E você, a ficção te ajudou a superar algo?

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